EUA: Rota 66
Pode até ser que venha a reconsiderar os meus conceitos, mas acho que viajar pela Rota 66 não é recomendável para quem tem tendências depressivas.
E mesmo que você não tenha tendências depressivas, não vá para a estrada esperando ver uma paisagem exuberante e cidades maravilhosas e coloridas.
Andar pela Rota 66 é embarcar em uma nave do tempo. É uma viagem ao passado. É um exercício de imaginação, tentando recriar na sua mente os momentos de glória daquela ruína que está à sua frente. Na maioria das vezes essa ruína não é mais que um breve lampejo desses tempos de glória.
Para o americano a Rota 66 faz todo sentido! Foi a motherroad, aquela que foi a estrada de integração nacional durante boa parte do século XX. A estrada que foi percorrida por milhares de desesperançados da Grande Depressão dos Anos 30, descrita por Steinbeck no famoso best-seller Vinhas da Ira.
Representa também a glória do Pós Guerra, com a decoração e arquitetura cafona dos anos 50, sendo percorrida por famílias em férias em seus reluzentes Buicks, Pontiacs, Studebakers e Cadillacs “rabo de peixe”. É a memória de um passado que foi descartado pela necessidade de se criar uma infra-estrutura que impulsionasse o progresso: as modernas Interstates.
O tal do progresso
E aquela estrada estreita, mal pavimentada, que passava por centenas de pequenas cidades, onde o viajante parava para abastecer, comer numa lanchonete, pernoitar em um motel, consertar um pneu furado e comprar um montão de lembrança cafona… deu lugar a uma estrada moderna que liga rapidamente origem e destino, sem se importar com os milhões de pessoas que viviam ao largo da antiga Rota 66.
Para essas pequenas cidades e pessoas que lá vivem, o progresso e a riqueza passam a 75 milhas por hora, muitas vezes a menos de 500 metros de sua porta.
Para todos os que viviam da Rota 66 em seus gloriosos tempos, o progresso significou ruína, pobreza, uma luta inglória fadada ao fracasso.
É por isso que a Rota 66 representa tanto para o americano: é o resgate de um momento de sua história.
E o que ela representa para o brasileiro acostumado a viajar para Miami, Orlando, Nova Iorque, Londres, Paris, Cancun, etc?!! Nada além de um mero modismo.
A Rota 66 inspirou a animação Cars
Pare e pense. Quando você imagina a Rota 66, o que lhe vem a cabeça? O filme Easy Rider, aqueles carrões dos anos 50 e 60, os tempos da brilhantina. E você em cima de uma Harley-Davidson percorrendo essa estrada icônica, concorda?!!!
Então muito, muito cuidado, pois provavelmente irá se decepcionar!
Ah, tem mais, a menos que você seja um cri-cri pesquisador de viagens inveterado como eu ( veja a observação abaixo) ou faça essa viagem com alguém especializado em Rota 66, provavelmente irá se perder dezenas de vezes pelo meio do caminho.
Por quê? Porque a Rota 66 simplesmente não existe mais nos mapas de estradas. Foi substituída por centenas de estradas e ruas com os nomes mais diversos possíveis. Achar o caminho é coisa pra especialista.
Se, mesmo assim, você quiser fazer essa viagem, me escreva. Tenho MUITA informação e posso repassá-las a você! Antes disso, vá lendo Vinhas da Ira e vendo o filme Cars (com olhar e mente de adulto), para ir entrando no clima!
Observação: para fazer a viagem apenas no trecho de Bridgeport (Oklahoma) a Barstow (California) comprei 5 livros, um vídeo e pesquisei informações em pelo menos uma dúzia de sites! Preparei um roteiro detalhado de onde deveria entrar e sair da Rota 66… e me perdi várias vezes!!!



