Tapeando o seu cérebro
Nos posts Tudo tem seu tempo e Acelerando a realidade, falamos do uso de velocidades rápidas e lentas do obturador e como elas afetam as imagens. Hoje falaremos do uso de velocidades ULTRA lentas do obturador. Velocidades tão lentas que mostram uma realidade bem além daquilo que nossos olhos podem ver.
Por exemplo, é algo semelhante à distância de um ano-luz ou a dimensão de um mícron. Dá para mensurar, mas nosso cérebro não consegue imaginar.
Velocidades ultra lentas abrem a porta para a criação de imagens que “tapearão” o nosso cérebro por captarem momentos que ele não consegue registrar.
Tapear?! Elas simplesmente podem fazer com que pessoas “desapareçam” da imagem! Na foto acima, eu estava na estação Grand Central em Nova Iorque, enquanto esse casal chinês fazia seu book de casamento no meio do pátio principal. Usei o fato de que cada pose que faziam era bastante longa e peguei “carona” na imagem deles. A velocidade de 10 segundos (f.13, ISO 100) fez com que as pessoas que caminhavam ao redor deles simplesmente “desaparecessem” ou virassem fantasmas, dando um incrível destaque para o casal.
Outro tipo de imagem que se beneficia bastante com o uso de velocidades ultra baixas é o registro das luzes de veículos em fotos noturnas como essa do Arco do Triunfo (15 segundos, f.18, ISO 100). Os carros desaparecem e fica apenas o registro das luzes.
Velocidades baixas do obturador
Ao aumentar o tempo de exposição, você verá que os elementos em movimento ficarão cada vez mais borrados. Na imagem acima, usei uma velocidade de obturador de 20 segundos (f.16, ISO 100) para borrar a água do mar, que passou a ter um visual semelhante ao de uma neblina.
Baixas velocidades também afetam o visual das nuvens. Observe a diferença das nuvens nas quatro fotos abaixo, que tirei no Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia chilena. Usei velocidades de obturador de 5, 10, 20 e 30 segundos, respectivamente (f.11, ISO 100 para todos, exceto a de 5 segundos com f.13). Você verá que elas estão se “movendo” e que quanto maior o tempo de exposição, maior é o efeito de “céu arrastado” e de lago “espelhado”.
É importante lembrar que a velocidade das nuvens determinará quão lenta deve ser a velocidade do obturador para poder captar esse movimento. Quando as nuvens estão se movendo rapidamente, você pode captar seu movimento mesmo com uma velocidade de obturador de 5 a 10 segundos. Em outras oportunidades, para realmente obter o efeito de “arrastar o céu”, muitas vezes é necessário usar uma velocidade do obturador maior que 30 segundos.
Regra dos 500
Velocidades muito baixas significam que o sensor da câmera captará MUITO mais luz. Isso possibilita tirar fotos espetaculares do céu e da Via Láctea, como a imagem (26 seg, f. 2,8, ISO 4000, distância focal 16mm) abaixo.
Ah, mas para se embrenhar na astrofotografia é preciso conhecer seus segredinhos. O primeiro, óbvio, é lembrar que, ao contrário do que aparenta, nada está parado no firmamento celeste. Ou seja, a Terra está em contínuo movimento e, a menos que você considere a rotação dela na hora de fotografar, suas estrelas vão aparecer borradas.
Existe uma regrinha básica que, apesar de não ser 100% precisa, você deve seguir: a Regra dos 500. Para isso, divida o número 500 pela distância focal da lente e você terá o tempo MÁXIMO que pode usar, sem que suas estrelas virem um borrão. No caso acima, dividindo 500 por 16 chegamos a 31 segundos. Como usei apenas 26 segundos, sem problemas!
Mas aí tem um outro probleminha. Como minha câmera é full frame, uma distância focal de 16mm é REALMENTE 16mm. E para as câmeras de sensor “cropado”? Nesse caso, você deve considerar o fator de corte, uma vez que ele ‘aumenta’ o valor original da distância focal da lente. Uma Canon Rebel T7i, por exemplo, tem um “crop factor” de x1,6. Ou seja, nesse caso você deveria considerar aquela lente de 16mm como uma lente 25,6mm (16×1,6) para efeitos de cálculo. Com isso, você reduziria o tempo para 19 segundos, bem menos que os 26 segundos que eu usei.
Modo Bulb
Mas nem só de 30 segundos vive o fotógrafo! O modo Bulb permite tempos de exposição muito maiores e, a partir daí, a criatividade é o limite!
Como exemplo do uso do modo Bulb, vamos dar uma olhadinha na foto (f.4.5, ISO 4000) acima: bela imagem da Nebulosa do Cachimbo. Fiz essa foto com lente de 100mm, bem como com tempo de exposição de 76 segundos.
Fazendo os cálculos… dividindo 500 por 100 chegamos a 5 segundos… Epa epa!!! “Edu, cê tá de sacanagem comigo“, diria você com toda razão! Se o limite era de 5 segundos, como é que usei 76 segundos e as estrelas não ficaram borradas? Porque usei um instrumento chamado de “montagem equatorial”, que faz a câmera acompanhar a velocidade da Terra, aumentando em MUITO a capacidade de absorção de luz pelo sensor da câmera, sem que haja qualquer distorção de imagem.
Lembra da foto da Via Láctea que vimos anteriormente? Agora, compare-a com a foto (f.3,5, ISO 2500) acima, que tirei com a mesma lente de 16mm, mas com montagem equatorial, o que me possibilitou um tempo de exposição de 116 segundos, mais que o triplo dos 31 segundos máximos que a Regra dos 500 determina.
Simples? Não, hiper complexo! Nunca me aventurei a regular o meu equipamento de montagem equatorial sem ter como babá um astrofotógrafo do lado!!!
Mas já que o modo Bulb não impõe limites à sua criatividade, por que não chutar o balde e borrar de vez as estrelas, transformando cada uma delas em trilhas luminosas? A foto (f.5.6, ISO 800) abaixo, que tirei no Death Valley National Park, Califórnia, precisou de longos 18 minutos para eu registrar.
Empilhamento de fotos
Dei sorte de não aparecer nenhum carro na estrada, para arruinar a foto com o seu farol. Sorte?! Não! Foi um risco calculado!
Mas existe uma forma mais simples de fazer fotos como esta, de super longa exposição. A técnica se chama “empilhamento de fotos” e é por software. Dessa forma, usa uma longa sequência de fotos com exposições mais curtas. Assim, permite a correção de problemas como a eliminação de eventuais aviões cruzando o céu e carros jogando o farol alto em cima da lente da câmera.
Pra terminar, tem mais um probleminha que ocorre em todas as fotos de ultra longa exposição. O sensor esquenta e gera ruído, gravando uma multiplicidade de desagradáveis pontinhos coloridos. Quanto mais longa for a exposição, maior será o nível de ruído!
É uma limitação técnica de TODOS os sensores que só a configuração Long Exposure Noise Reduction consegue resolver. Com ela, a câmera “tira” uma foto preta com a mesmíssima duração da sua foto original, compara as duas, descobre onde estão os pontos de ruído e os retira da foto antes da gravação no cartão de memória.
Isso significa que uma foto de 10 segundos durará 20 segundos com o uso do Noise Reduction! Significa também que uma foto de 18 minutos vai levar intermináveis 36 minutos para você concluir!
Imagine então o “saco” necessário para fazer a foto (f.8, ISO 1000) acima! Levou 30 minutos de exposição!!!
Pano rápido!!!



